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Médica Kátia Vargas é acusada de atingir com seu carro a moto onde os dois viajavam. Um mês depois, nem Marinúbia nem o marido, Oto, tem ódio. Eles querem somente a justiça.

Ao abrir a porta do apartamento 1.404 de um edifício na Graça, Marinúbia Gomes Barbosa (foto), 46 anos, revela o mesmo olhar imóvel de 30 dias atrás. Para quem perdeu dois filhos, um mês não é nada. E ao mesmo tempo é muito. A dor é a mesma do instante em que soube da morte brutal dos filhos Emanuel Gomes Dias, 22, e Emanuelle Gomes Dias, 23, no dia 11 de outubro.

Os dois morreram ao cair da moto em que viajavam na orla de Ondina. A médica Kátia Vargas é acusada de atingi-los propositalmente com o Kia Sorento que dirigia. Daquele dia em diante, numa reação quase que natural, Marinúbia se apegou a tudo que a ajudasse a suportar o sofrimento. Pouco mais de 20 dias depois da tragédia, ela voltou a trabalhar. Não só porque isso a ajuda a esquecer por alguns instantes do pesadelo real que se tornou sua vida. Não. O que a fez voltar foi o tipo de atividade que desempenha. Depois de lidar tão de perto com a morte, nada como o contato com a vida. E a vida na sua forma mais singela.

Enfermeira da área de obstetrícia, foi acolhida pela equipe da Maternidade José Maria de Magalhães, no Pau Miúdo, referência em nascimentos de risco. Cada mulher que dá à luz naquele hospital representa uma gestação de esperança no coração da mãe de Emanuel e Emanuelle. O nascimento dos filhos dos outros tem ajudado a aguentar a perda dos seus.

“Se a gente ficasse aqui em casa sozinhos, todos os dias, a gente não ia suportar. A gente ia entrar em depressão”, disse Marinúbia, tendo à mão esquerda acariciada pelo professor de Administração Oto Malta, 69, seu marido e padrasto dos jovens. “Decidi voltar porque lidar com crianças recém- nascidas é diferente. Ali tenho tanto contato com os problemas dos outros que não dá tempo de pensar nos meus”.

O problema é voltar para casa. Abrir a porta e dar de frente com os porta-retratos e tudo que a faz lembrar os “meninos”. Marinúbia até se desfez de dezenas de objetos dos filhos, especialmente roupas e sapatos. Doou para instituições de caridade. “Quando entrava no quarto subia aquele cheiro deles. Psicologicamente não me fazia bem. Aí resolvemos doar”.

Mas não quis abrir mão de tudo. Medalhas das competições de natação que Emanuel participava ou os bichinhos de madeira que colecionava estão bem guardados. Alguns espalhados pela casa. A pitt bull Iuna, xodó do rapaz, também está ali para fazê-la lembrar do quanto gostava de bichos. “Emanuel era muito ligado à natureza. Gostava de mergulhar”, conta.

A mãe não esconde a forte ligação com o rapaz. “Já sonhei com ele cinco vezes. Ainda não consegui sonhar com ela. Mas é que minha relação com Emanuel era muito forte”, explica. “Nunca conheci ninguém mais sereno. Era tão tranquilo que chegava a ser ingênuo”, diz a mãe, que está sendo acompanhada por psicólogos e toma calmantes.

Já para se recordar de Emanuelle, basta olhar para os livros. “Ela era mais de estudar, muito aplicada. Apesar da idade, era uma menina muito esperta”. No sexto semestre, Emanuelle estava prestes a se formar em Direito. “Com certeza seria uma advogada muito competente”, acredita mãe e padrasto.

Dor

É tanta dor que eles ainda não conseguiram se colocar no lugar da outra família. O que eles pensam da médica Kátia Vargas? “Por enquanto não há o que pensar. A única coisa que não queremos fazer é acumular ódio ou raiva. Não é da nossa natureza. Nossos filhos eram pessoas tranquilas e não gostariam disso. Mas pior que o crime é a impunidade. Por isso alimentamos um grande desejo de justiça”, destaca o padrasto.

A mãe também é contra qualquer tipo de agressão à médica e sua família. “Não tenho ódio, não quero vingança, mas esse sentimento de justiça não vai cessar nunca”. A mãe fala pouco do dia da morte dos filhos, ainda que corrija o fotógrafo do CORREIO quando este se referiu ao fato como “acidente”. “O ‘crime’, né? Você quer dizer ‘crime’”.

Para o padrasto, todas as evidências o levam a acreditar que houve dolo na atitude da médica. “Não sou perito, não faço suposições. Me apego às testemunhas, ao inquérito policial e ao Ministério Público. Tudo indica que foi crime doloso. Não posso afirmar, mas minha impressão é que ela jogou eles no poste”, completa.

Gratidão

Foi, portanto, um mês de dor. Muita dor. Mas não só isso. Marinúbia e Oto descobriram o poder da solidariedade anônima. “Vou pagar contas no banco e as pessoas me reconhecem. Vou ao supermercado e os funcionários me abraçam. Gente que nunca vi envia textos, mensagens de apoio. Queria dizer obrigado de coração a esses anônimos por dividir essa dor com a gente”, agradece, carregando no pescoço um terço que ganhou de presente. “Não sou católica, mas sou espiritualista. Nesse momento buscamos apoio em todas as religiões e guardamos todos os objetos que nos oferecem”.

Também fazem questão de agradecer à polícia, à Justiça e ao Ministério Público. “As pessoas acreditam que essas instituições não funcionam. Mas, no nosso caso, elas têm sido exemplares”. Marinúbia e Oto moram em um apartamento de dois quartos na Graça. No menor dos cômodos, Emanuel e Emanuelle dormiam em um beliche.

“As pessoas pensam que somos ricos porque moramos na Graça. Sou enfermeira e ele professor. Quem somos nós? Não temos qualquer força política e, mesmo assim, as instituições estão trabalhando para que tudo seja feito da melhor forma possível. Isso nos conforta muito”, observa a mãe. É a crença na Justiça, nas instituições e nas pessoas que faz Marinúbia levantar todo dia. “É isso que me faz dizer para mim mesma que não é pra me entregar. Nunca vou ficar em cima de uma cama pensando no que aconteceu”, diz, apesar das lágrimas no olhar imóvel.

Padrasto de jovens já perdeu outros dois filhos

O professor de Administração Oto Malta, 69 anos, é um homem sereno. Ou pelo menos aparentemente. Mas teria motivos para alimentar uma incrível revolta. Até porque, nas suas próprias palavras, Deus para ele tinha tudo para ser uma incógnita. “Tem horas que a gente duvida da existência de Deus”.

A vida do padrasto de Emanuel e Emanuelle é talvez mais trágica que a da própria mãe dos jovens. Isso porque Oto perdeu dois filhos de outro relacionamento. Dois homens. O primeiro há cerca de 10 anos, também em um acidente. O segundo de complicações no coração. “Emanuel e Emanuelle de certa forma substituíram meus filhos. Agora que também os perdi posso dizer: essa mulher (a média Kátia Vargas) destruiu minhas alegrias”.

A relação nunca foi de padrasto, mas de pai. Prova disso foi quando Marinúbia e Oto tiveram um desentendimento e se separaram. Os dois irmãos que o procuraram e pediram que voltassem a formar uma família. Foi o que aconteceu. “Aí acontece essa tragédia sem tamanho”. Mesmo assim, diz ter forças para viver. Quanto a Deus, Oto diz reencontrar em cada gesto de carinho que recebe da população. “É tanto amor todos os dias que acabo levantando por conta disso”.

Defesa de médica diz que não há prova de colisão

Na sexta-feira passada, o advogado de Kátia Vargas apresentou a defesa da médica. O criminalista Sérgio Habib vê como inconclusivo o laudo da perícia das câmeras de segurança que registraram o momento do acidente que vitimou Emanuel e Emanuelle.

“Estão supondo que o carro bateu na moto, mas as imagens não dizem isso, nem o laudo”, argumentou Habib em entrevista ao CORREIO. No entanto, para o promotor Davi Gallo, do Ministério Público do Estado (MP), as afirmações são “infundadas”. “O laudo não diz que não houve colisão, mas que não é possível determinar o exato momento da colisão”, afirmou Gallo, que trabalhará no caso com o promotor Cássio Melo, da 1ª Vara Criminal.

A previsão é que o resultado da perícia no carro e na motocicleta seja divulgado a partir de hoje. Marinúbia Barbosa tenta não se abalar pela tentativa de defesa. “O advogado está fazendo a parte dele. É pago para isso. Busca desmerecer as testemunhas e as evidências. Mas a verdade vai aparecer. Colocamos agora nas mãos do Ministério Público e da Justiça”. O MP denunciou a oftalmologista à Justiça por dois homicídios duplamente qualificados.