“Tive a sorte de ter um anjo”, diz atriz Cissa Guimarães, quebrando o silêncio após a morte de seu filho Rafael
do G1
Atriz participou de homenagem ao filho que morreu atropelado em túnel. Grafite, manobras de skate e música marcaram manifestação de carinho.
“Eu tive a sorte de ter um anjo”. Foi com essa frase que a atriz Cissa Guimarães se referiu ao filho caçula, o músico e skatista Rafael Mascarenhas, de 18 anos, que morreu atropelado no dia 20 de julho, no Túnel Acústico, na Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Cissa participou de uma homenagem ao jovem na madrugada desta quinta-feira (29), no local onde ocorreu o acidente.
Muito emocionada, a atriz chegou por volta de 1h20 desta quinta ao local acompanhada do diretor e amigo Ernesto Picolo, dos filhos Thomaz e João Velho e de Raul Mascarenhas, pai de Rafael. Centenas de pessoas, entre skatistas, artistas, amigos e parentes de Rafael Mascarenhas participaram da homenagem, realizada na pista sentido São Conrado.
A homenagem começou por volta de 1h desta quinta-feira, logo após o fechamento para manutenção da pista sentido São Conrado. O ato foi realizado com autorização da Secretaria municipal de Trânsito do Rio de Janeiro. Agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio) e policiais militares acompanharam a manifestação.
A tristeza logo deu lugar à alegria. Cissa Guimarães recebeu abraços de todos e se disse muito feliz com a manifestação de carinho. A atriz surpreendeu com um forte grito de “Rafa”, arrancando aplausos e lágrimas. Em seguida, ela e família depositaram vasos de flores no local próximo onde ocorreu o acidente.
“Eu agradeço, eu agradeço por ele (Rafael). Tudo aqui é para ele e não para mim. Eu quero que todos saibam que ele está aqui abençoando esse momento lindo. Ele não era só meu. Ele era de todo mundo. Muito obrigada. Eu estou muito feliz com tudo isso”, declarou a atriz emocionada.
Rafael Mascarenhas morreu atropelado na madrugada de terça-feira (20), enquanto andava de skate com amigos no Túnel Acústico, que estava com um trecho interditado.
Durante a homenagem, skatistas realizaram manobras dentro do túnel, que foi fechado para manutenção. Enquanto isso, artistas grafitaram um grande painel com desenhos e mensagens de carinho ao músico. A atriz Cissa Guimarães, os filhos e o músico Raul Mascarenhas também fizeram questão de deixar os seus recados.

O retrato de Rafael Mascarenhas foi pintado na parede do Túnel Acústico
“Pinta mais coisa branca para a gente escrever gente! Esse coração é muito pequeno. O dele era muito maior. Pinta mais branco!”, disse Cissa logo após escrever a mensagem “Obrigada Rafael” dentro de um coração pintado no muro do Túnel Acústico. “Isso tudo é para você meu filho”, completou a atriz abraçada ao músico Raul Mascarenhas.
Banda de Rafael tocou durante homenagem
Emoção, arte e música marcaram a homenagem ao músico. A banda The Good Fellas, da qual Rafael era vocalista e guitarrista, fez uma apresentação. Raul Mascarenhas aproveitou a deixa e também homenageou o filho com uma canção feita especialmente para ele ao saxofone. Foi o suficiente para reunir todos numa grande roda e arrancar mais aplausos.
“Ele se foi, mas o que ele mais deixou aqui foi o amor. E isso vocês podem ver nessa demonstração de carinho. É contraditório dizer, eu estou triste, mas feliz com toda essa homenagem. Ele foi embora, mas deixou essa homenagem linda. Eu quero que a Justiça seja feita e que a morte de Rafael não seja em vão, que ela modifique muita coisa”, disse Raul.
“Eu vou voltar a sorrir”, diz Cissa
Cissa Guimarães dançou e cantou as músicas preferidas do filho. Logo após a apresentação da banda The Good Fellas, ela acompanhou de perto o trabalho dos artistas que desenhavam na parede do Túnel Acústico o retrato de Rafael Mascarenhas: “Eu sou a mãe do Rafael e logo voltarei a sorrir novamente”, completou a atriz, que deixou o local por volta das 4h.
Túnel pode ganhar nome do músico
João Velho, irmão do skatista, afirmou que há uma ideia dos amigos e da família de levar para a prefeitura do Rio de Janeiro uma proposta de mudar o nome do túnel para Túnel Acústico Rafael Mascarenhas. Segundo ele, a homenagem estava marcada para a madrugada da última terça-feira (27), mas teve que ser adiada por causa da reconstituição do acidente realizada pela polícia.
“O ‘Rafa’ era a cara do Rio. E nada mais justo que esse túnel passe a se chamar Túnel Acústico Rafael Mascarenhas. Ainda é uma ideia dos amigos dele, mas a nossa família vai apoiar no que for preciso. Eu, meu irmão e minha mãe não precisamos fazer mais nada, porque tem muita gente que gosta dele que está disposta a ajudar. Nesse momento eu sinto que ele está aqui”, declarou João.
O cantor Marcelo D2 também fez questão de apoiar a família de Rafael Mascarenhas: “Eu e minha mulher conhecemos a Cissa e toda a sua família. Eu conheci o Rafael ainda pequeno e vim dar uma força para toda a família nesse momento”. Além de D2, o ator Marcelo Serrado e a cantora e irmã por parte de pai de Rafael, Mariana Belém, prestaram as suas homenagens.
Na madrugada de terça-feira (20), os amigos já tinham concluído um outro grafite para homenagear Rafael Mascarenhas. O muro de uma casa na Gávea, onde mora um dos integrantes da banda The Good Fellas também se transformou em um colorido painel, com guitarras estilizadas.
Missa de sétimo dia
A missa de sétimo dia da morte do músico começou por volta das 19h45 de terça-feira (27), na Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, na Zona Sul. A crimônia foi encerrada com o pai do jovem, Raul Mascarenhas, tocando uma música que fez para o filho ao saxofone.
“Esse sax era dele, eu mesmo mandei pra ele, mas ele escolheu outro instrumento (Rafael tocava guitarra). Que o meu anjo esteja no céu. É muita emoção, muita dor. Eu agradeço todo o apoio. É duro”, disse Raul já do lado de fora da igreja.
A saída dos convidados da Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, na Zona Sul do Rio, foi ao som da música “Canção da América”, de Milton Nascimento. Entre os presentes estavam os atores Carolina Dieckman, Rodolfo Bottini, Antônio Grassi, Patricia Pillar, Patrycia Travassos, Lilia Cabral, Teresa Seiblitz, Samara Filippo, Ana Beatriz Nogueira, Marieta Severo e Renata Sorrah.
Investigação
No mesmo dia do acidente, Rafael Bussamra, de 25 anos, se apresentou à polícia e confessou ter atropelado o músico. Em depoimento, ele contou que prestou socorro ao filho da atriz e que foi liberado pela polícia. Outros três jovens que estavam no carro de Rafael Bussamra e no de seu amigo prestaram depoimento. Todos negaram estar participando de um “pega”.
Em depoimento, Roberto Bussamra, pai de Rafael Bussamra, contou que o filho foi coagido a pagar propina para os policiais. A delegada Bárbara Lomba afirmou que os policias podem ser acusados por corrupção passiva e Rafael e Roberto Bussamra por corrupção ativa. Rafael Bussamra ligou para o pai, que pagou R$ 1 mil aos policiais após o acidente. O pedido dos policiais, segundo ele, teria sido de R$ 10 mil.
O cabo da Polícia Militar Marcelo Bigon e o sargento Marcelo Leal, acusados de liberar o carro do jovem que atropelou Rafael Mascarenhas foram presos na quarta-feira (28) e levados para a Unidade Prisional da Polícia Militar, em Benfica, no subúrbio. A Justiça Militar já havia decretado a prisão preventiva dos dois.



















há 1 mês atrás
Matéria extraida do Diário da Manhã de 27/07/2010
O erro de Mara
A gari Mara Luciane Macedo, de 37 anos, morreu depois de ser atropelada por um “veículo branco que trafegava em alta velocidade”, no centro de Carazinho, dia 25 de março de 2010. O automóvel e seu motorista – que, aliás, fugiu sem prestar socorro à vítima – não foram identificados. Provavelmente nunca serão. E isso porque Mara cometeu um erro primário e imperdoável aqui, neste país que chamamos Brasil: Mara não era filha nem esposa de ninguém importante. Mara não tinha dinheiro, não tinha influencia, não tinha bons contatos. Mara não era gente que interessa.
Ao contrário do musico Rafael Mascarenhas, de 18 anos, filho da atriz Global Cissa Guimarães, que na última segunda-feira, dia 19, também foi atropelado e também acabou morrendo sem receber socorro do motorista. Tal e qual Mara. Porem, muito diferente do caso carazinhense, o motorista responsável pelo atropelamento de Rafael já foi encontrado e indiciado, e certamente pagará pelo crime que cometeu. Inclusive já descobriram, numa rapidez impressionante, que o pai deste prezado motorista levou o carro, todo amassado devido ao acidente, a um mecânico, pedindo urgência no conserto.
Medida esta também utilizada, muito possivelmente, pelo atropelador de Mara. Mas agora, quatro meses depois do acontecido, as chances de identificá-lo são e continuam sendo praticamente nenhuma.
Acho que a morte de Mara não será explicada, o responsável não será punido e acidentes como este, onde não há culpados, apenas vitimas, continuarão acontecendo em Carazinho e no resto do país, livremente. Injustamente.
Talvez devêssemos, todos nós, darmos um jeito de nos tornarmos, também pessoas importantes. Precisamos, urgentemente, inventar uma maneira de virarmos gente influente, poderosa, financeiramente admirável para a sociedade e, naturalmente, para as autoridades.
Para o caso de sermos atropelados, e morrermos por pura e total irresponsabilidade alheia, pelo menos vermos punidos aqueles que, insensatamente, dirigem seus carros acreditando serem os reis selvagens do asfalto, sem respeitar nada, sem respeitar ninguém, acobertados por papais endinheirados que acham mais importante encobrir o filhinho da mamãe do que fazê-lo responsabilizar-se pelo crime que praticou.
Não cometamos o mesmo erro de Mara: ser pobre, trabalhadora, gente simples.
Pois caso contrário, deixaremos nossos filhos, nossos pais e nossos amigos com aquele gosto ruim e amargo de injustiça e revolta, que não passa nem diminui nunca.
Perguntem para “Dona Landa”, mãe de Mara, ou para Ana Paula, sua filha de 15 anos, como elas se sentem hoje, sabendo que ninguém se importa com a morte de Mara como poderiam se importar, caso Mara fosse filha do mesmo papai que encobertou seu filhinho da mamãe, que guiava um ‘veículo branco que trafegava em alta velocidade’ em Carazinho no dia 25 de março de 2010.
Jana Lauxen, escritora.